21.5.12

O tempo todo é um tempo nenhum

corremos e queremos desacelerar


atrasados, queremos
correr

queremos todo o tempo
e tempo não temos nenhum

mas esse todo tempo que queremos
o que será?

será tempo de viver mais
o tempo do encontro marcado
às 27h da manhã?

e se antes, ainda pela manhã, tivermos tido
todo o tempo nenhum
morto que nos mata
com suas horas infinitas
de suor e sangue?

o que é esse tempo que queremos?
pra quê?

pra vivermos
precisamos de extensão?

18.4.12

Tá coçando muito

Arranho a folha com a caneta
estou com raiva
um monte de trem deu errado


Tudo bem
o que importa é que os trilhos permanecem
e posso ainda fazer infinitas viagens diferentes pelo mesmo caminho


Ou parte da viagem
se bem que depois da partida toda viagem já é inteira
e dou de ombros se não chego aonde quero


Dou de ombros aliás
se tudo der errado
porque tudo nunca dá errado


Mas ainda que tudo desse errado
bastava-me mover de lugar a palha dos meus desejos
e alguma coisa passaria a ser acerto


Palha, eu disse palha?
Sim, palha
pois o que pesa não é senão que a renitência do ser desejante


Pois que eu tire a bunda
de cima dessa palha
pra ver se paro de reclamar da coceira!

29.3.12

Vencido em Pé


Pus minha cara a tapa
e apanhei muito

Mas antes assim
que, de outro modo,
submeter-me ao consenso

O vermelho
ainda marca
as mãos do poder agressor,
mas minha dor
me é galhardia;

antes ser vencido
que sem razão vencer
ou fazer-me um nada resignado.

Quarta-feira, no Brasil cinzas


Encontrei-a no chão chamuscada.
Perguntei-lhe por sua dona.

A fita,
despedaçando-se,
respondeu-me silêncio.
Da cor do sol de meio-dia,
somente restara uma pálida lembrança.

Por onde andará aquela criança,
menina sapeca de seguidos carnavais,
de olhar sempre fugidio
que, ao deparar com o meu,
ia correndo e rindo, louca, até os confins?
E lá se ia a Pedrita, a Colombina, a Bailarina
e tantas outras mais.

Crescera decerto
como decerto cresci.

Passou o tempo,
perdi Maria Rita
e a mim também perdi.

13.11.11

O Último Segundo É Ontem


O último segundo acabou de passar
Os relógios registraram onipresentes

Miríades de outros segundos antes deste
também transcorreram
últimos a seu tempo

Transcorreram todos desde o primeiro segundo
antes do qual não havia tempo
para o tempo passar

E se tempo não havia
não havia liberdade
nem movimento

Hoje dormimos tarde
acordamos cedo
sem tempo para dormir
ou acordar

Sonhamos tantos sonhos convulsos
a não saber se os sucessos
são concretos
ou imensos casulos estéreis de seda

Hoje, como nos tempos imemoriais
não há tempo
não há liberdade
nem movimento

Hoje corremos loucos
de um compromisso a outro
sem espaço nas agendas
para passar o tempo

O último segundo é ontem
tempo passado todo feito de vazio
porque não teve tempo para passar

30.9.11

Quem sou não sei eu, o que dirá você!

Não sou a imagem que me reflete no seu cérebro,
no meu ou no de quem seja

Sou pedaço eterno de vida limitada no tempo
não dou inteiro no regaço de um colo
sou poço de águas limpidamente turvas
e impossível (e perigosa) é essa vontade de tocar o fundo que não há

Mas há em mim o que se pode ver
até onde se pode ir
posso até matar a sede de alguns poucos desejos

Não queira, entretanto, me definir
o ser eu que sou é indefinível, abstrato, oco, cheio de ar

Sou eu mesmo um espelho refratário às definições
especialmente se se quer conhecer por meio de mim.

23.9.11

O Relojoeiro

Consertam-se relógios com a precisão das horas certas.
Nunca mais faça desastroso o encontro amoroso
nem perca mais aviões, navios e trens.

Tenha o relógio sempre na hora exata da saída
para férias espetaculares,
em momentos antes dos esporros infundados
(ah, os esporros... são sempre infundados).

Que naquela hora você nunca esteja naquele lugar,
no caminho da bala perdida ou a você dirigida.

Livre-se em todas as horas dos chatos,
mas, lembre-se, ser chato não é profissão.

Que naquela hora você esteja sempre lá,
a receber um bom cafuné,
no ombro amigo,
com o amigo nos ombros.

Que a hora de vocês, mulheres, seja sempre a melhor.
Hora de vida.
de luz.
Que sempre saibam que os seus filhos homens são homens
e que o seu homem é igualmente filho de uma mulher.

Que, enfim, todas as horas
sejam momentos de recomeço,
de acertar os ponteiros consigo
para que não se perca a hora de ser como se é.

6.9.11

Hoje saí

Estava em casa distraído e saí
de mim por este mundão afora

Vi muita coisa triste
e alegrias várias também vi

Alegrias que não deram em nada
em chumaços de pouco algodão ancoradas

E tristezas
se reviraram felizes
só porque delas sairam suas presas
pelo condão
que tem
sair de si.

30.8.11

Somente o que se quer e ponto de exclamação?

Burrice da vontade
loucura do desejo
achar que somente nos serve
o que a gente quer

Inúmeras experiências
fora do campo da nossa vontade
morrem vãs
sem por nós serem vividas

Objetos infinitamente vários passam
sem merecerem o nosso toque
ou sequer atraírem o nosso olhar

Pessoas e suas vastidões
permanecerão para sempre inexploradas
Ignotos universos paralelos

Não podemos ter tudo
e nosso desejo é filtro bem-vindo
mas não podemos deixá-lo reinar absoluto
fazendo-nos infelizes se não cumprimos a totalidade dos seus decretos

Que de uma impossibilidade
venham todas as possibilidades de um mundo aberto ao nosso redor
porque aberta permanecerá a cela do nosso peito
e o nosso coração jamais será escravo do nosso desejo

Assim seja por nós!

8.5.11

Átimo de pó

Muito menos que um pouco, bem, bem pouco
Esse nada que é a vida
tem de ser vivido em plenitude inversa

Nada perseguir
para tudo alcançar

Nele,
todo pobre é rico
todo rico é pobre
todos são ricos
todos são pobres

É o campo das infinitas possibilidades
e de nenhuma

Um paradoxo lógico sem causa
Um absurdo belo e dorido

Eu nela
ela em mim
até o...
que
como na riqueza e na pobreza
existe sim e não existe não.

25.5.10

Carta a Se


A paz, guerreira, é um esquecimento de si
um abandono das verdades que carregamos dentro
uma suspensão do certo e do errado
um tirocínio sem julgamento

É com a chuva, matar a sede
com o estio, caiar um muro
com o vento, zarpar
com a calmaria, afeiçoar-se

Não se luta contra a realidade
ela é o que é
é pegar ou largar
pegue-a

Faça dela seu estandarte
de dor e prazer
de surpresas e tédios
de tudo junte a ele a simbólica inscrição

E ria se alegre
e chore se triste
e ame se apaixonada
e grite se dói
viva, enfim, enquanto viva estiver

Depois, possa você sorrir
porque viveu a vida que tinha de ser

6.6.09

Tempo de Vivente

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parênteses que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.

1.3.09

Poema de Minuto

E se eu fosse poeta
e tivesse somente um minuto
para o primeiro e último poema?

Antes, poeta não seria,
ou, se fosse, seria um sem poemas,
posto que não os havia escrito nenhum
até o momento dessa ideia doida
de poema de minuto.

No entanto, como sucede a todo poeta que se preza
e que escreve na primeira pessoa,
o poema seria personalíssimo,
sanguíneo,
mucoso e, para dizer o comum,
visceral.

Mas o fato é que este poeta catou o minuto
e não, ao contrário, foi por ele colhido.
De modo que o poema se apresenta esbatido em tons violáceos.
Sem sangue, portanto,
mucos
ou vísceras.

Um poema que,
como os demais poemas,
passou-se em um minuto,
bestamente.

24.1.09

O Corredor

A vida é uma corrida:
partida na chegada,
chegada na partida.

Essa corrida não corro lento
nem vou o mais veloz:
nela não quero chegar antes,
nem após.

Que me doa a dor que tiver que me doer,
que eu suba aos céus de prazer,
mas desta pista somente saio morto de viver.

31.10.08

O Catador

Passa o dia a revirar
latas,
sacos,
monturos.

É papel limpo,
sujo,
muito papelão:
caixas de impressoras,
micros,
geladeiras,
tvs,
fogões.

Antigos furos:
jornais mortos,
revistas idas.

É ele quem junta tudo
sobre a carroça.

É ele próprio
quem carrega,
a cada dia,
a história da nação,
para reciclar.

1.8.08

Cruzeiro Lunar

A luz da lua,
lívida,
atordoa a cabeça nua.

Quereres mil.
Do não
jogo fora o til.

Com a nau ancorada
vou zarpar
por um mar revolto,
lunar.

21.6.08

Negra Li

Hoje acordei
e o mundo
estava nele mesmo

os carros
e os ônibus
subiam em algazarra
à minha cama
já ela
não mais
emolduraria minha janela.

Embora eu não quisesse
ela se foi

foi pra não voltar

veio a morte
e a levou

levou-a
para longe do meu olhar

Para ela agora
não há mais
carros
ônibus
janela
e eu.

Para mim
foram-se
os carinhos
um roçar de pele
o ronronar matinal.

Ela se foi
para não mais voltar,
minha gata
Negra Li

1.6.08

Memórias para mais

Com serenidade e paz
a memória se faz
e dela a realidade perdida
brota brejeira

A voz ao longe
do verdureiro na feira

O verde matizado
da mata

O rubro intenso
do batom da mulata

A voz do meu amor
a dizer juras eternas
em um absoluto atemporal
que por tudo se espraia

O manequinho
apregoando o jornal

Alegria, alegria,
Caetano cantando loas ao Sol.

Domingo no Maraca
com o antigo futebol.

Tudo, enfim, que foi bom
surge
e nos dá
a mão

17.3.08

Deslocado

O sítio meu no mundo
é pequeno,
mero aceno
num mar de lenços multicores.

Agonia sem fim
esse vazio em cujo espaço
não caibo,
porque não há como preencher.

Meu lugar no mundo
é menor que eu,
porque sou inteiro o mundo todo
e mais
e, portanto, sou somente nada.

9.3.08

Competitividade Jaqueira

Era uma vila operária habitada por trabalhadores da fábrica de telhas e da de tecidos Maracanã. A lida era dura. Labutavam muito. Iam dormir com as galinhas e com os galos despertavam. Isso em um tempo em que o ditado se dava literalmente, quando, na Usina da Tijuca, ainda se morava em casas com galinheiros e em que os galináceos andavam soltos pelas ruas, ciscando ali e acolá.

Pois bem, o fato é que todos se retiravam por volta da hora do Angelus, para fazer suas preces e, ato contínuo, dormir.

Havia vezes, entretanto, em que a rotina era quebrada. Das casas ouvia-se um som surdo e, em resposta, seus moradores saíam em camisolões alvoroçados. Iam atrás dela, a jaca que caíra, em aberta competição. Até que se ouvia um grito de rasgada euforia. Um deles a havia encontrado. Catava o troféu e em atitude vencedora, o levava secundado por uma procissão. O felizardo adentrava a sua casa, retalhava a jaca e compartia sua vitória com os demais. Todos teriam jaca para o café da manhã seguinte.

 
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