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6.9.11

Hoje saí

Estava em casa distraído e saí
de mim por este mundão afora

Vi muita coisa triste
e alegrias várias também vi

Alegrias que não deram em nada
em chumaços de pouco algodão ancoradas

E tristezas
se reviraram felizes
só porque delas sairam suas presas
pelo condão
que tem
sair de si.

17.3.08

Deslocado

O sítio meu no mundo
é pequeno,
mero aceno
num mar de lenços multicores.

Agonia sem fim
esse vazio em cujo espaço
não caibo,
porque não há como preencher.

Meu lugar no mundo
é menor que eu,
porque sou inteiro o mundo todo
e mais
e, portanto, sou somente nada.

2.11.07

Vazio Essencial

Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.

Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.

Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento

31.10.07

A Vida é Bela Menina

As mãos eu mergulho
em rios de sangue

Ela ergue a cabeça a procurar
nas nuvens brancas
Anjos cândidos

A vida é bela
vista da perspectiva
das janelas
dos olhos dela

Sobre a terra
Anjos caídos
são pisoteados por hordas de famintos
por turbas de fanáticos
por bandos de bandidos

Para ela
eu minto:

Filha,
olha para cima,
lá estão as brancas nuvens
onde moram Anjos cândidos.

Viu, menina?
A vida é bela!
___________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

Plazas de Mayo

em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original

Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.

Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.

Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.


29.9.07

Errático

Ando a esmo
procurando não encontrar
aquela lembrança
que não está em nenhum lugar

Ando a esmo.
para não olhar em mim
o fato passado
que insiste presente.

Ando a esmo,
para, ao errar,
inebriar a mente
com estupefacientes
e fazê-la adormecer
e sonhar
com memórias
impossíveis.

22.8.07

sobre as cabeças os urubus

Como os exus bebuns devem saber, eu não sou muito chegado à prosa não. Comigo a conversa quanto mais curta e grossa melhor. Mas vou arriscar, que o assunto é grave, mais que qualquer gravame que um tombo poderia me trazer, mesmo aqui, à noite no boteco.

Sou um herético. Os crentes de plantão sempre me acusam de calúnia, injúria e difamação. Dizem que desprezo deus solenemente e, por isso, se escandalizam, uma vez que votam profunda adoração por ele. Para arrematar, reverberam a nave dos templos com imprecações, porque me têm como idólatra.

Nisso lá têm razão os adoradores de deus. De fato, tenho os meus ídolos. Os dos 60 são de minha predileção. Eles foram formidáveis. Porque leves, puros, ingênuos, loucos e anárquicos eram humanos, profundamente. Ídolos em idílio com utopias possíveis, não fossem os crentes no deus único. A conjuntura era de crise aguda dos valores defendidos por párocos e generais. Estes importaram órgãos explícitos de repressão, aqueles providenciavam a caridosa extrema-unção.

Na lateral oposta da nossa esfera mundana, já vinham, há algum tempo, conspurcando a materialidade da história, ciência da locução perfeita da verdade. Mais claramente, falo da adulteração de documentos, como o retoque de fotos para a supressão da qualidade correligionária dos traidores.

Imagina isso tudo hoje? Impossível. Os ídolos, aqueles dos 60, ruíram convertidos ao deus único de todas as profissões da fé: o maldito dinheiro. E os censores evoluíram. Hoje se dedicam à fina arte de suprimir a nudez que há na nudez dos corpos, concretos em carne ou retratados em pixels ou papel couche nas revistas e websites.

Tristes tempos, os amantes continuam a precisar de véus e sombras. E pensar que lá nos 60 parecia que tudo ia ser dado à luz. Hoje não há mais necessidade dos órgãos de repressão, porque há superabundância de órgãos de depressão.

 
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