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13.11.11

O Último Segundo É Ontem


O último segundo acabou de passar
Os relógios registraram onipresentes

Miríades de outros segundos antes deste
também transcorreram
últimos a seu tempo

Transcorreram todos desde o primeiro segundo
antes do qual não havia tempo
para o tempo passar

E se tempo não havia
não havia liberdade
nem movimento

Hoje dormimos tarde
acordamos cedo
sem tempo para dormir
ou acordar

Sonhamos tantos sonhos convulsos
a não saber se os sucessos
são concretos
ou imensos casulos estéreis de seda

Hoje, como nos tempos imemoriais
não há tempo
não há liberdade
nem movimento

Hoje corremos loucos
de um compromisso a outro
sem espaço nas agendas
para passar o tempo

O último segundo é ontem
tempo passado todo feito de vazio
porque não teve tempo para passar

23.9.11

O Relojoeiro

Consertam-se relógios com a precisão das horas certas.
Nunca mais faça desastroso o encontro amoroso
nem perca mais aviões, navios e trens.

Tenha o relógio sempre na hora exata da saída
para férias espetaculares,
em momentos antes dos esporros infundados
(ah, os esporros... são sempre infundados).

Que naquela hora você nunca esteja naquele lugar,
no caminho da bala perdida ou a você dirigida.

Livre-se em todas as horas dos chatos,
mas, lembre-se, ser chato não é profissão.

Que naquela hora você esteja sempre lá,
a receber um bom cafuné,
no ombro amigo,
com o amigo nos ombros.

Que a hora de vocês, mulheres, seja sempre a melhor.
Hora de vida.
de luz.
Que sempre saibam que os seus filhos homens são homens
e que o seu homem é igualmente filho de uma mulher.

Que, enfim, todas as horas
sejam momentos de recomeço,
de acertar os ponteiros consigo
para que não se perca a hora de ser como se é.

6.6.09

Tempo de Vivente

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parênteses que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.

24.1.09

O Corredor

A vida é uma corrida:
partida na chegada,
chegada na partida.

Essa corrida não corro lento
nem vou o mais veloz:
nela não quero chegar antes,
nem após.

Que me doa a dor que tiver que me doer,
que eu suba aos céus de prazer,
mas desta pista somente saio morto de viver.

9.2.08

Narciso Terrificado

Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.

Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.

A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.

Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.

Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.

Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).

O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.

Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor

1.2.08

A Relatividade na Prática

O tempo é uma dor que persiste em si
por isso também é a sua cura
O melhor remédio
a pior tortura

Dias e dias
passam arrastados por mim

Não há dor
que o tempo não cure
Mesmo a dor pelo tempo secretada
Aflição do tédio
escorrendo-me lento pela cara

De uma hora para outra
passa o tempo
e a dor do tempo passa
Foi ela
que enfim
apareceu na praça.

O tempo veloz
acelerado por aquela voz
as risadas
as brincadeiras

De súbito tudo se atira em precipício soturno:
Nane se vai
e me submerge no escarro do tempo

Quantos dias durarão as próximas horas?

25.12.07

Textura de Coragem

A todos os anos novos

Remendo
Todos os medos,
Meros arremedos
Com textura aparente de coragem.
Estiagem
Entre tempestades
De renovados assombros
E mais escombros
Sobre mim.

Medo madrugador
De linhas fracas
A arrebentar
Na minha Alma.

Calmo,
Corro a tomar a agulha do Real,
Para com a minha linhagem,
Costurar um elmo,
De lona tosca e bruta,
Do meu sangue rubra,
Para que me cubra
Com a verdadeira textura da coragem
Contra os fatídicos destroços
Dos tempos futuros de outras ilusões,
Rainhas destronadas
Do espírito meu.

15.12.07

Tempo Déspota

Hoje acordei de um sonho dos Deuses

Sonhei que escolher não era necessário
que podia ter tudo
o tempo
as coisas
as pessoas

Sonhei que amava várias mulheres
que morava em inúmeras casas
que professava todos os credos
que, no restaurante, pedia todos os pratos
que exercia todas as profissões.

Acordei com o despertador
que comprei entre tantos
mandando-me para o trabalho de todos os dias
escolhi a roupa que vesti
e, cedendo à tirania do tempo,
enfrentei a lotada infernal do trem:
antes tivesse ido de ônibus.

5.12.07

Modus vivendi

Aonde vou
depois de tudo.
Depois de ninguém mais me ouvir ou ver
por ter-me tornado um nada invisível e mudo.

Não sei para onde vou,
mas sei que agora sou.
Depois não sei mais se serei
nem, se for, se serei pior ou melhor.

Sei onde estou a agora:
sobre essa terra que me dá chão,
ao sabor desta brisa que me beija inteiro.

O que sei é que estou vivo:

durmo e acordo,
como e bebo,
defeco e urino,
tenho amigos e inimigos,
prazeres e dores.

Vivo simplesmente a grandiosidade da vida que que me foi dada.
É o meu jeito de reverenciá-la,
de tentar sair dela quase a deixando como a encontrei:
sagrada e intocada para quem virá.

21.11.07

Aragem Ventanista

Eis-me aqui
sem medo
ou coragem.

Recebo da noite
sua aragem fria.

Quero dizer meu nome
mas que precisão essa de dizer meu nome?
No alto desta noite solitária
faço-me companhia
a única companhia possível.

Alta noite que mais alto se eleva
logo será dia
e acordarei deste sonho acordado
entre mim e eu mesmo.

Terei perdido o sono
e ganho a fantasia que esta noite me tomou.

8.11.07

Tão-Somente Agora

Cada dia que viceja
é óbito dos dias idos
e antevisão embaçada de um devir incerto.

Não corroa assim o tempo:

carpindo o dia que se foi
ainda que antológico
ou de árduo horror.

prelibando o futuro
que, quimera,
é desejo lançado no abismo do nada.

Deixe todo o ontem na sua hora,
em algum arquivo esquecido
em um recanto da memória.

O futuro deixe ser o que será,
sem mapas, rotas, planos.
Arcano inalcançãvel,
tempo impreciso.

Viva intensamente o agora,
ele é todo glória,
resultado de todo o ontem morrido,
promessa incompleta de todo o amanhã ansiado.

29.10.07

A Ruína

Ao velho que quero ser

Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?

Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.

Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.

As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.

O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.

Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.

Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.

16.10.07

Dias Sem Fim

Canso dos dias
Uns atrás dos outros
Todos numa fila imensa
A espera de mim
Que não quero seguir
A estrada do tempo até o seu fim

Queria sim
Parar o tempo no momento de um beijo
Que, eterno, dê-me da boca o seu frescor
Sempre te amar, amor
Sem a morte para nos separar

 
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