O último segundo acabou de passar
Os relógios registraram onipresentes
Miríades de outros segundos antes deste
também transcorreram
últimos a seu tempo
Transcorreram todos desde o primeiro segundo
antes do qual não havia tempo
para o tempo passar
E se tempo não havia
não havia liberdade
nem movimento
Hoje dormimos tarde
acordamos cedo
sem tempo para dormir
ou acordar
Sonhamos tantos sonhos convulsos
a não saber se os sucessos
são concretos
ou imensos casulos estéreis de seda
Hoje, como nos tempos imemoriais
não há tempo
não há liberdade
nem movimento
Hoje corremos loucos
de um compromisso a outro
sem espaço nas agendas
para passar o tempo
O último segundo é ontem
tempo passado todo feito de vazio
porque não teve tempo para passar
13.11.11
O Último Segundo É Ontem
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Marcadores: alimento, autocrítica, dor, eternidade, tempo
1.3.09
Poema de Minuto
E se eu fosse poeta
e tivesse somente um minuto
para o primeiro e último poema?
Antes, poeta não seria,
ou, se fosse, seria um sem poemas,
posto que não os havia escrito nenhum
até o momento dessa ideia doida
de poema de minuto.
No entanto, como sucede a todo poeta que se preza
e que escreve na primeira pessoa,
o poema seria personalíssimo,
sanguíneo,
mucoso e, para dizer o comum,
visceral.
Mas o fato é que este poeta catou o minuto
e não, ao contrário, foi por ele colhido.
De modo que o poema se apresenta esbatido em tons violáceos.
Sem sangue, portanto,
mucos
ou vísceras.
Um poema que,
como os demais poemas,
passou-se em um minuto,
bestamente.
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7:46 AM
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Marcadores: alimento, metalinguagem, realidade
1.6.08
Memórias para mais
Com serenidade e paz
a memória se faz
e dela a realidade perdida
brota brejeira
A voz ao longe
do verdureiro na feira
O verde matizado
da mata
O rubro intenso
do batom da mulata
A voz do meu amor
a dizer juras eternas
em um absoluto atemporal
que por tudo se espraia
O manequinho
apregoando o jornal
Alegria, alegria,
Caetano cantando loas ao Sol.
Domingo no Maraca
com o antigo futebol.
Tudo, enfim, que foi bom
surge
e nos dá
a mão
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Marcadores: alimento, anos 70, brasil, caetano veloso, futebol, infância, inspiração, leveza, liberdade, memórias, passado, paz interior, rio de janeiro, usina da tijuca
9.3.08
Competitividade Jaqueira
Era uma vila operária habitada por trabalhadores da fábrica de telhas e da de tecidos Maracanã. A lida era dura. Labutavam muito. Iam dormir com as galinhas e com os galos despertavam. Isso em um tempo em que o ditado se dava literalmente, quando, na Usina da Tijuca, ainda se morava em casas com galinheiros e em que os galináceos andavam soltos pelas ruas, ciscando ali e acolá.
Pois bem, o fato é que todos se retiravam por volta da hora do Angelus, para fazer suas preces e, ato contínuo, dormir.
Havia vezes, entretanto, em que a rotina era quebrada. Das casas ouvia-se um som surdo e, em resposta, seus moradores saíam em camisolões alvoroçados. Iam atrás dela, a jaca que caíra, em aberta competição. Até que se ouvia um grito de rasgada euforia. Um deles a havia encontrado. Catava o troféu e em atitude vencedora, o levava secundado por uma procissão. O felizardo adentrava a sua casa, retalhava a jaca e compartia sua vitória com os demais. Todos teriam jaca para o café da manhã seguinte.
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2:38 AM
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25.1.08
Vó Dulce
Fiquei mais só:
um pedaço da história
da minha infância,
adolescência,
juventude
e idade adulta
se foi agora
com a partida da minha avó frondosa.
Ela me deixou
mais triste
e feliz.
Tristeza de não mais vê-la,
de não mais poder aninhar-me
no regaço da sua dupla maternidade
na linha reta
que a ligava a mim
por intermédio de minha mãe.
Felicidade de lembranças claras e luminosas:
ela no seu jardim diariamente
às voltas com latas, vasos e vidas pintadas de branco.
A terra acomodada com carinho,
com a fé, a força e a determinação
de que era fértil aquela terra e bom o adubo,
de que suas sementes vingariam em rebentos,
de que seus rebentos cresceriam e viriam a ser árvores um dia,
de que as árvores floresceriam,
flores das quais adviriam vários e saborosos frutos:
Aires, que deve estar, radiante, de volta à sua companhia,
Ariza,
Eu,
Raquel,
Soráya,
Fábio,
Luciana,
Felipe,
Fabrício,
Alessandra,
Natália,
Juliana,
Ígor,
Danilo,
Amanda
Luísa ...
Em todos, esteja certa minha avó,
viceja sua seiva.
Que a paz do dever cumprido em alegre harmonia lhe acompanhe,
sempre.
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9:01 PM
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23.10.07
O Que Fazer das Mangas?
Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.
Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.
Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.
Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.
Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.
Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.
É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.
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16.10.07
À Mesa com Leveza
A leveza
põe-se à mesa.
No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.
Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.
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6:53 PM
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