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30.8.11

Somente o que se quer e ponto de exclamação?

Burrice da vontade
loucura do desejo
achar que somente nos serve
o que a gente quer

Inúmeras experiências
fora do campo da nossa vontade
morrem vãs
sem por nós serem vividas

Objetos infinitamente vários passam
sem merecerem o nosso toque
ou sequer atraírem o nosso olhar

Pessoas e suas vastidões
permanecerão para sempre inexploradas
Ignotos universos paralelos

Não podemos ter tudo
e nosso desejo é filtro bem-vindo
mas não podemos deixá-lo reinar absoluto
fazendo-nos infelizes se não cumprimos a totalidade dos seus decretos

Que de uma impossibilidade
venham todas as possibilidades de um mundo aberto ao nosso redor
porque aberta permanecerá a cela do nosso peito
e o nosso coração jamais será escravo do nosso desejo

Assim seja por nós!

24.1.09

O Corredor

A vida é uma corrida:
partida na chegada,
chegada na partida.

Essa corrida não corro lento
nem vou o mais veloz:
nela não quero chegar antes,
nem após.

Que me doa a dor que tiver que me doer,
que eu suba aos céus de prazer,
mas desta pista somente saio morto de viver.

1.8.08

Cruzeiro Lunar

A luz da lua,
lívida,
atordoa a cabeça nua.

Quereres mil.
Do não
jogo fora o til.

Com a nau ancorada
vou zarpar
por um mar revolto,
lunar.

7.3.08

Joio e Trigo

Joeirar
O que se vai falar.
Pensar muito
No intuito
De não dizer
Asneira.

Mas, se são
As palavras
Como lavas
De um vulcão ativo,
Como suster o crivo
Se for para dizer:
Mulher,
Sou louco
Por você!

4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

6.11.07

só a cartola do Cartola pode

inspirado no CD Só Cartola da Rob Digital
com Elton Medeiros, Nelson Sargento & Galo Preto


A cartola do Cartola
ninguém a vê,
mas tá lá,
sem asneira,
altaneira.

Se uns -
também outros -
lhe bordoarem,
de cima a baixo,
como um cachação,
um som surdo
ecoa na alma do agressor

De cartola
em chapéu-coco,
a coroa faz oco
quem se fez assim de bobo
querendo ser sinhô.

Cartola bate pronto,
sambando
e entornando cachaça
em Galo Preto.

A voz lhe empresta
Nelson Sargento & Elton Medeiros.

2.11.07

Vazio Essencial

Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.

Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.

Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento

31.10.07

A Vida é Bela Menina

As mãos eu mergulho
em rios de sangue

Ela ergue a cabeça a procurar
nas nuvens brancas
Anjos cândidos

A vida é bela
vista da perspectiva
das janelas
dos olhos dela

Sobre a terra
Anjos caídos
são pisoteados por hordas de famintos
por turbas de fanáticos
por bandos de bandidos

Para ela
eu minto:

Filha,
olha para cima,
lá estão as brancas nuvens
onde moram Anjos cândidos.

Viu, menina?
A vida é bela!
___________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

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25.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

19.10.07

Os Alienistas

ao Machado de O Alienista

Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.

Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.

São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.

Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.

São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.

4.11.06

Meu Bom Demônio Mau

Faltam-me as faltas,
Os vícios
E todos os malefícios
Que só sonhei causar.

Sem jeito,
Um bom demônio
É o que há em mim.
Ele me atormena
Não sendo ruim.

 
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