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31.10.08

O Catador

Passa o dia a revirar
latas,
sacos,
monturos.

É papel limpo,
sujo,
muito papelão:
caixas de impressoras,
micros,
geladeiras,
tvs,
fogões.

Antigos furos:
jornais mortos,
revistas idas.

É ele quem junta tudo
sobre a carroça.

É ele próprio
quem carrega,
a cada dia,
a história da nação,
para reciclar.

1.6.08

Memórias para mais

Com serenidade e paz
a memória se faz
e dela a realidade perdida
brota brejeira

A voz ao longe
do verdureiro na feira

O verde matizado
da mata

O rubro intenso
do batom da mulata

A voz do meu amor
a dizer juras eternas
em um absoluto atemporal
que por tudo se espraia

O manequinho
apregoando o jornal

Alegria, alegria,
Caetano cantando loas ao Sol.

Domingo no Maraca
com o antigo futebol.

Tudo, enfim, que foi bom
surge
e nos dá
a mão

9.3.08

Competitividade Jaqueira

Era uma vila operária habitada por trabalhadores da fábrica de telhas e da de tecidos Maracanã. A lida era dura. Labutavam muito. Iam dormir com as galinhas e com os galos despertavam. Isso em um tempo em que o ditado se dava literalmente, quando, na Usina da Tijuca, ainda se morava em casas com galinheiros e em que os galináceos andavam soltos pelas ruas, ciscando ali e acolá.

Pois bem, o fato é que todos se retiravam por volta da hora do Angelus, para fazer suas preces e, ato contínuo, dormir.

Havia vezes, entretanto, em que a rotina era quebrada. Das casas ouvia-se um som surdo e, em resposta, seus moradores saíam em camisolões alvoroçados. Iam atrás dela, a jaca que caíra, em aberta competição. Até que se ouvia um grito de rasgada euforia. Um deles a havia encontrado. Catava o troféu e em atitude vencedora, o levava secundado por uma procissão. O felizardo adentrava a sua casa, retalhava a jaca e compartia sua vitória com os demais. Todos teriam jaca para o café da manhã seguinte.

19.11.07

Respeito à Hábil Navalha

Vibra no ar o aço flexível da navalha
Sacada na hora improvável.

A ameaçaFaz tremer.
Cadê a fama do matador?

O suor nasce frio
Como lâmina
Penetrando a carne.

O algoz corre morto de medo pelas vielas.
Teme morrer o matador.

Tão cedo não aparecer
Naquelas paragens
São os planos do matador.

10.9.07

Pau Brasilis

Ao Dicionário Nei Lopiano do Banto à Minha Pátria Amada


que de madeira sangue
rubro vermelha
fez-se verde
vida
azul do céu do brigadeiro
macaco anil.

No meu dicionário
banto,
banzo aos poucos
foi se minando,
nas minas,
canaviais,
cafezais,
Bahia,
Recife,
Rio,
Minas Gerais,
foi-se tornando
um estrondoso
e veraz amor
pela Terra
de Santa Cruz.

No novo dicionário,
guardo todo o rancor no armário,
quero paz,
nada mais de ais.

A sinonímia é imperfeita
e por isso mesmo cria
paz ecumênica.
Na novel semiologia
do Brasil
teologia dá a libertação,
multicultural, interdisciplinar,
interracial, internacional,
universal
paz mundial.

(de todos porque sem dono ou senhor)

 
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