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5.12.07

Modus vivendi

Aonde vou
depois de tudo.
Depois de ninguém mais me ouvir ou ver
por ter-me tornado um nada invisível e mudo.

Não sei para onde vou,
mas sei que agora sou.
Depois não sei mais se serei
nem, se for, se serei pior ou melhor.

Sei onde estou a agora:
sobre essa terra que me dá chão,
ao sabor desta brisa que me beija inteiro.

O que sei é que estou vivo:

durmo e acordo,
como e bebo,
defeco e urino,
tenho amigos e inimigos,
prazeres e dores.

Vivo simplesmente a grandiosidade da vida que que me foi dada.
É o meu jeito de reverenciá-la,
de tentar sair dela quase a deixando como a encontrei:
sagrada e intocada para quem virá.

19.11.07

Respeito à Hábil Navalha

Vibra no ar o aço flexível da navalha
Sacada na hora improvável.

A ameaçaFaz tremer.
Cadê a fama do matador?

O suor nasce frio
Como lâmina
Penetrando a carne.

O algoz corre morto de medo pelas vielas.
Teme morrer o matador.

Tão cedo não aparecer
Naquelas paragens
São os planos do matador.

6.11.07

só a cartola do Cartola pode

inspirado no CD Só Cartola da Rob Digital
com Elton Medeiros, Nelson Sargento & Galo Preto


A cartola do Cartola
ninguém a vê,
mas tá lá,
sem asneira,
altaneira.

Se uns -
também outros -
lhe bordoarem,
de cima a baixo,
como um cachação,
um som surdo
ecoa na alma do agressor

De cartola
em chapéu-coco,
a coroa faz oco
quem se fez assim de bobo
querendo ser sinhô.

Cartola bate pronto,
sambando
e entornando cachaça
em Galo Preto.

A voz lhe empresta
Nelson Sargento & Elton Medeiros.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

23.10.07

Plazas de Mayo

em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original

Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.

Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.

Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.


5.9.07

Histórias para Infantes

(ao Danilo, meu filho, que me conta histórias como essas desde que nasceu, diariamente)

Onde está o mundo
Em que vivi na infância:
Histórias fantásticas de heróis
Saindo-se vencedores
Por serem íntegros,
Quase santos?

Outras deveriam ser as fábulas
A nos preparar a ser heróis:
Sem vitória,
Sem gala,
Sem nada.

As histórias infantis
Que imagino
Ensinariam
Ao menino e à menina
Viver a angústia do outro
(e a sua própria)
Sem a esperança
Do acalanto de aplausos
Ou da surra das vaias.

Haverá Santos?

Espíritos judiciosos,
venho, por meio desta,
lhes interrogar:
quem presta?

Os mortos,
por obséquio
e em reverente temor ao nosso futuro obscuro,
não considerem.

Eu,
que não sou morto ainda,
duvido às vezes,
muitas, para ser sincero,
se eu próprio
(não me quero subtrair às críticas)
sou lá flor que se cheire.

Portanto,
respondam sem ficção:
se suas judiciosíssimas pessoas fossem confiar
do mesmo jeito, grau e modo
em que confiaram em vocês,
o mundo ia ter mais ou menos cor?

30.6.07

Vômito Poético

[valew,Perrone]

Minha mãe não me colocou no mundo,
Me pariu nele.
Olhei em volta,
Deu asco o que vi,
Vomitei
Ventos e flores,
Sóis e putarias.
Vômito antitético,
Gestante da poesia.

Êta com arde!
Arde àgua da peste!

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