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4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

19.11.07

Respeito à Hábil Navalha

Vibra no ar o aço flexível da navalha
Sacada na hora improvável.

A ameaçaFaz tremer.
Cadê a fama do matador?

O suor nasce frio
Como lâmina
Penetrando a carne.

O algoz corre morto de medo pelas vielas.
Teme morrer o matador.

Tão cedo não aparecer
Naquelas paragens
São os planos do matador.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

Plazas de Mayo

em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original

Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.

Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.

Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.


19.10.07

Os Alienistas

ao Machado de O Alienista

Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.

Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.

São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.

Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.

São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.

10.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Aí,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

22.8.07

sobre as cabeças os urubus

Como os exus bebuns devem saber, eu não sou muito chegado à prosa não. Comigo a conversa quanto mais curta e grossa melhor. Mas vou arriscar, que o assunto é grave, mais que qualquer gravame que um tombo poderia me trazer, mesmo aqui, à noite no boteco.

Sou um herético. Os crentes de plantão sempre me acusam de calúnia, injúria e difamação. Dizem que desprezo deus solenemente e, por isso, se escandalizam, uma vez que votam profunda adoração por ele. Para arrematar, reverberam a nave dos templos com imprecações, porque me têm como idólatra.

Nisso lá têm razão os adoradores de deus. De fato, tenho os meus ídolos. Os dos 60 são de minha predileção. Eles foram formidáveis. Porque leves, puros, ingênuos, loucos e anárquicos eram humanos, profundamente. Ídolos em idílio com utopias possíveis, não fossem os crentes no deus único. A conjuntura era de crise aguda dos valores defendidos por párocos e generais. Estes importaram órgãos explícitos de repressão, aqueles providenciavam a caridosa extrema-unção.

Na lateral oposta da nossa esfera mundana, já vinham, há algum tempo, conspurcando a materialidade da história, ciência da locução perfeita da verdade. Mais claramente, falo da adulteração de documentos, como o retoque de fotos para a supressão da qualidade correligionária dos traidores.

Imagina isso tudo hoje? Impossível. Os ídolos, aqueles dos 60, ruíram convertidos ao deus único de todas as profissões da fé: o maldito dinheiro. E os censores evoluíram. Hoje se dedicam à fina arte de suprimir a nudez que há na nudez dos corpos, concretos em carne ou retratados em pixels ou papel couche nas revistas e websites.

Tristes tempos, os amantes continuam a precisar de véus e sombras. E pensar que lá nos 60 parecia que tudo ia ser dado à luz. Hoje não há mais necessidade dos órgãos de repressão, porque há superabundância de órgãos de depressão.

 
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