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31.10.08

O Catador

Passa o dia a revirar
latas,
sacos,
monturos.

É papel limpo,
sujo,
muito papelão:
caixas de impressoras,
micros,
geladeiras,
tvs,
fogões.

Antigos furos:
jornais mortos,
revistas idas.

É ele quem junta tudo
sobre a carroça.

É ele próprio
quem carrega,
a cada dia,
a história da nação,
para reciclar.

4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

5.12.07

Modus vivendi

Aonde vou
depois de tudo.
Depois de ninguém mais me ouvir ou ver
por ter-me tornado um nada invisível e mudo.

Não sei para onde vou,
mas sei que agora sou.
Depois não sei mais se serei
nem, se for, se serei pior ou melhor.

Sei onde estou a agora:
sobre essa terra que me dá chão,
ao sabor desta brisa que me beija inteiro.

O que sei é que estou vivo:

durmo e acordo,
como e bebo,
defeco e urino,
tenho amigos e inimigos,
prazeres e dores.

Vivo simplesmente a grandiosidade da vida que que me foi dada.
É o meu jeito de reverenciá-la,
de tentar sair dela quase a deixando como a encontrei:
sagrada e intocada para quem virá.

6.11.07

só a cartola do Cartola pode

inspirado no CD Só Cartola da Rob Digital
com Elton Medeiros, Nelson Sargento & Galo Preto


A cartola do Cartola
ninguém a vê,
mas tá lá,
sem asneira,
altaneira.

Se uns -
também outros -
lhe bordoarem,
de cima a baixo,
como um cachação,
um som surdo
ecoa na alma do agressor

De cartola
em chapéu-coco,
a coroa faz oco
quem se fez assim de bobo
querendo ser sinhô.

Cartola bate pronto,
sambando
e entornando cachaça
em Galo Preto.

A voz lhe empresta
Nelson Sargento & Elton Medeiros.

5.11.07

BOPE - Beleza de Operação Especial

Minha gatinha
é mesmo muito linda

Ela anda pelas ruas
enquanto olha o mundo

Se um do mundo cai
ela é capaz de desviar-se do caminho
para salvá-lo

Como não a amar
de amor maior?

Como não ser servidor
do serviço a que ela serve?

Serviçal
ás vezes quente
às vezes fria

às vezes dura
às vezes suave

às vezes doce
às vezes Docinho

Mas sempre uma serviçal
que serve
ao mundo
com um sentimento
estranhamente estrangeiro

Salvas à minha menina
santa e atéia
guerreira e super-poderosa

Como ela quantas?

Não há muitas
arriscaria até dizer
só há ela
única e especial.

Minha mulher
mãe do Dan
a você me prendo por vontade.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

29.10.07

A Ruína

Ao velho que quero ser

Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?

Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.

Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.

As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.

O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.

Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.

Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

Plazas de Mayo

em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original

Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.

Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.

Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.


21.10.07

O Último Tigre da Estirpe

ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo

Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.

Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.

Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.

Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.

17.10.07

Bolar a Bola

Frio seco,
Dois irmãos
Em tocas de meia
Jogam bola.

É minha!
Não é!
É!

Zoeira,
Gritaria,
Algazarra.

Dominical,
O Jornal
Samba no chão
Contrariado.

Bola rasgada
Inclementemente
Ao meio.

Chororô,
Meias bola,
Bola nenhuma,
Bolas de meia!

Brincam
Os meninos
Com bolas de meia
E, em capacetes de meia bola,
Sobem e descem
Ladeiras.

16.10.07

À Mesa com Leveza

A leveza
põe-se à mesa.

No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.

Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.

5.9.07

Haverá Santos?

Espíritos judiciosos,
venho, por meio desta,
lhes interrogar:
quem presta?

Os mortos,
por obséquio
e em reverente temor ao nosso futuro obscuro,
não considerem.

Eu,
que não sou morto ainda,
duvido às vezes,
muitas, para ser sincero,
se eu próprio
(não me quero subtrair às críticas)
sou lá flor que se cheire.

Portanto,
respondam sem ficção:
se suas judiciosíssimas pessoas fossem confiar
do mesmo jeito, grau e modo
em que confiaram em vocês,
o mundo ia ter mais ou menos cor?

30.6.07

Vômito Poético

[valew,Perrone]

Minha mãe não me colocou no mundo,
Me pariu nele.
Olhei em volta,
Deu asco o que vi,
Vomitei
Ventos e flores,
Sóis e putarias.
Vômito antitético,
Gestante da poesia.

Êta com arde!
Arde àgua da peste!

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4.11.06

Meu Bom Demônio Mau

Faltam-me as faltas,
Os vícios
E todos os malefícios
Que só sonhei causar.

Sem jeito,
Um bom demônio
É o que há em mim.
Ele me atormena
Não sendo ruim.

 
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