Não sou a imagem que me reflete no seu cérebro,
no meu ou no de quem seja
Sou pedaço eterno de vida limitada no tempo
não dou inteiro no regaço de um colo
sou poço de águas limpidamente turvas
e impossível (e perigosa) é essa vontade de tocar o fundo que não há
Mas há em mim o que se pode ver
até onde se pode ir
posso até matar a sede de alguns poucos desejos
Não queira, entretanto, me definir
o ser eu que sou é indefinível, abstrato, oco, cheio de ar
Sou eu mesmo um espelho refratário às definições
especialmente se se quer conhecer por meio de mim.
30.9.11
Quem sou não sei eu, o que dirá você!
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6.9.11
Hoje saí
Estava em casa distraído e saí
de mim por este mundão afora
Vi muita coisa triste
e alegrias várias também vi
Alegrias que não deram em nada
em chumaços de pouco algodão ancoradas
E tristezas
se reviraram felizes
só porque delas sairam suas presas
pelo condão
que tem
sair de si.
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12:01 PM
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17.3.08
Deslocado
O sítio meu no mundo
é pequeno,
mero aceno
num mar de lenços multicores.
Agonia sem fim
esse vazio em cujo espaço
não caibo,
porque não há como preencher.
Meu lugar no mundo
é menor que eu,
porque sou inteiro o mundo todo
e mais
e, portanto, sou somente nada.
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9.2.08
Narciso Terrificado
Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.
Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.
A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.
Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.
Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.
Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).
O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.
Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor
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19.11.07
Respeito à Hábil Navalha
Vibra no ar o aço flexível da navalha
Sacada na hora improvável.
A ameaçaFaz tremer.
Cadê a fama do matador?
O suor nasce frio
Como lâmina
Penetrando a carne.
O algoz corre morto de medo pelas vielas.
Teme morrer o matador.
Tão cedo não aparecer
Naquelas paragens
São os planos do matador.
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4.11.07
Ficus ou Não Fico
Getúlio:
Fico ou não fico?
Que belos tempos os do Catete,
das paixões e das indignidades:
diga ao povo que não fico
- BAMMM! -
chumbo sobre o músculo cardíaco.
Festejados sejam os
dias do fico.
Coração em fogo:
Fica comigo essa noite?
Vivam todos os que,
a despeito dos mitos,
teimosamente ficam:
árvores encopadas
e ficantes extasiados.
Não digo o fico do Pedro,
cuja altivez tinha à cabeça
pedras quiçá moles demais.
Afinal, mais valem para mim
os majestosos ficus elásticos
da minha Usina da Tijuca querida
à sandice dos que não ficam
por vontade ou falta de coragem.
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2.11.07
Vazio Essencial
Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.
Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.
Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento
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29.10.07
A Ruína
Ao velho que quero ser
Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?
Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.
Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.
As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.
O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.
Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.
Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.
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25.10.07
Entre Dentro e Fora
Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.
Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.
E assim vai,
ora entra,
ora sai.
Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!
O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.
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19.10.07
Os Alienistas
ao Machado de O Alienista
Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.
Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.
São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.
Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.
São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.
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13.10.07
Lili Berra
A menina Lili,
linda:
Grita!
Berra!
Urra!
O que busca
a Lili menina?
A libérrima liberdade
do vôo furtacor
da libélula.
Liberte-se, mulher!
Você já tem todas as cores,
a paleta
e o pincel.
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29.9.07
Errático
Ando a esmo
procurando não encontrar
aquela lembrança
que não está em nenhum lugar
Ando a esmo.
para não olhar em mim
o fato passado
que insiste presente.
Ando a esmo,
para, ao errar,
inebriar a mente
com estupefacientes
e fazê-la adormecer
e sonhar
com memórias
impossíveis.
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5.9.07
Histórias para Infantes
(ao Danilo, meu filho, que me conta histórias como essas desde que nasceu, diariamente)
Onde está o mundo
Em que vivi na infância:
Histórias fantásticas de heróis
Saindo-se vencedores
Por serem íntegros,
Quase santos?
Outras deveriam ser as fábulas
A nos preparar a ser heróis:
Sem vitória,
Sem gala,
Sem nada.As histórias infantis
Que imagino
Ensinariam
Ao menino e à menina
Viver a angústia do outro
(e a sua própria)
Sem a esperança
Do acalanto de aplausos
Ou da surra das vaias.
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4.11.06
Meu Bom Demônio Mau
Os vícios
E todos os malefícios
Que só sonhei causar.
Sem jeito,
Um bom demônio
É o que há em mim.
Ele me atormena
Não sendo ruim.
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