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17.3.08

Deslocado

O sítio meu no mundo
é pequeno,
mero aceno
num mar de lenços multicores.

Agonia sem fim
esse vazio em cujo espaço
não caibo,
porque não há como preencher.

Meu lugar no mundo
é menor que eu,
porque sou inteiro o mundo todo
e mais
e, portanto, sou somente nada.

7.11.07

Santa Guerreira Atéia

(à Nane, minha mulher guerreira)

Gosto desse seu ar
De absoluta revolta
Contra as atrocidades
Do mundo.

Você não acredita em céu,
Nem no ir e vir
Da alma.

Mas, apesar de nenhuma fé,
Segue calma,
Acreditando no homem
Como ele é:
Terrível e terno,
Justo e iníquo
Mau e bom.

Nesse seu caminho
Não se ouve som
De lamento,
Só o das suas armas
Para essa guerra
Que a vida encerra
Ao querer perpetuar-se
Pela matéria.

5.11.07

BOPE - Beleza de Operação Especial

Minha gatinha
é mesmo muito linda

Ela anda pelas ruas
enquanto olha o mundo

Se um do mundo cai
ela é capaz de desviar-se do caminho
para salvá-lo

Como não a amar
de amor maior?

Como não ser servidor
do serviço a que ela serve?

Serviçal
ás vezes quente
às vezes fria

às vezes dura
às vezes suave

às vezes doce
às vezes Docinho

Mas sempre uma serviçal
que serve
ao mundo
com um sentimento
estranhamente estrangeiro

Salvas à minha menina
santa e atéia
guerreira e super-poderosa

Como ela quantas?

Não há muitas
arriscaria até dizer
só há ela
única e especial.

Minha mulher
mãe do Dan
a você me prendo por vontade.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

29.10.07

A Ruína

Ao velho que quero ser

Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?

Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.

Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.

As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.

O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.

Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.

Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.

25.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

21.10.07

O Último Tigre da Estirpe

ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo

Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.

Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.

Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.

Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.

19.10.07

Os Alienistas

ao Machado de O Alienista

Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.

Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.

São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.

Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.

São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.

16.10.07

À Mesa com Leveza

A leveza
põe-se à mesa.

No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.

Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.

13.10.07

Lili Berra

A menina Lili,
linda:
Grita!
Berra!
Urra!

O que busca
a Lili menina?

A libérrima liberdade
do vôo furtacor
da libélula.

Liberte-se, mulher!
Você já tem todas as cores,
a paleta
e o pincel.

4.11.06

Meu Bom Demônio Mau

Faltam-me as faltas,
Os vícios
E todos os malefícios
Que só sonhei causar.

Sem jeito,
Um bom demônio
É o que há em mim.
Ele me atormena
Não sendo ruim.

 
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