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6.6.09

Tempo de Vivente

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parênteses que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.

7.3.08

Joio e Trigo

Joeirar
O que se vai falar.
Pensar muito
No intuito
De não dizer
Asneira.

Mas, se são
As palavras
Como lavas
De um vulcão ativo,
Como suster o crivo
Se for para dizer:
Mulher,
Sou louco
Por você!

4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

9.2.08

Narciso Terrificado

Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.

Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.

A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.

Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.

Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.

Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).

O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.

Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor

27.12.07

Um Amor Tanto

pelo aniversário da Nane, o meu Amor

Este amor é tanto
que não há mar
que suporte em sua umidade
o fogo deste amar

será porque que a amo assim
inteiro?

não sei
só sei que é assim.

nosso amor
guerreia
fazendo as pazes

pacifica
fazendo guerras

um caldeirão de emoções
as mais loucas

nos atormenta
e gratifica

nos dói
e sara

e ao final
estaremos exaustos
e com um sorriso bobo na boca

que assim seja.

3.12.07

Da Flor ao Horror

Flor
Rima-ímã
De amor

Amor
Rima-ímã
De dor

Dor
Rima-ímã
De horror

E assim
Foi que passaram
Da flor ao amor
Do amor à dor
Da dor ao horror

12.11.07

Poema ao Poeta

Poeta,
Que Musa
É essa
Que te inspira
Para meu regalo
E nem sequer
Te conheço,
Muito menos te falo
E me dizes tudo,
Sussurrando ao meu ouvido
Segredos de mim
Que me eram secretos

Quem és tu
Que, quando em qualquer ponto
De tua estatura
Sem tamanho
Descanso o olhar
A ler-te,
Invariável é que apanhem
A minha arcada
Em sorriso solto
Aliviada
Pela luz da tua graça

A mim que me firo
Por tombos
Em cadafalsos
Sobre o solo tolo
Da aparente concretude da realidade
Ofereces como solução
Imagens mirabolantes.

9.11.07

Exortação aos Meninos de Hoje e de Amanhã

Tem fé menino,
tem fé menino,
tem feminino na mulher.

Enamora aquela
que te sabe simples e frágil masculino,
menino gerado no ventre da sua primeira e ancestral mulher.

4.11.07

Ficus ou Não Fico

Getúlio:
Fico ou não fico?

Que belos tempos os do Catete,
das paixões e das indignidades:
diga ao povo que não fico
- BAMMM! -
chumbo sobre o músculo cardíaco.

Festejados sejam os
dias do fico.

Coração em fogo:
Fica comigo essa noite?

Vivam todos os que,
a despeito dos mitos,
teimosamente ficam:
árvores encopadas
e ficantes extasiados.

Não digo o fico do Pedro,
cuja altivez tinha à cabeça
pedras quiçá moles demais.

Afinal, mais valem para mim
os majestosos ficus elásticos
da minha Usina da Tijuca querida
à sandice dos que não ficam
por vontade ou falta de coragem.

21.10.07

O Último Tigre da Estirpe

ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo

Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.

Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.

Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.

Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.

16.10.07

Dias Sem Fim

Canso dos dias
Uns atrás dos outros
Todos numa fila imensa
A espera de mim
Que não quero seguir
A estrada do tempo até o seu fim

Queria sim
Parar o tempo no momento de um beijo
Que, eterno, dê-me da boca o seu frescor
Sempre te amar, amor
Sem a morte para nos separar

10.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Aí,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

7.9.07

Que todas sejam FLORAS, que o mundo seja quintais com pomares para nos nutrir e descansarmos das batalhas

Gil, meu Ministro da Cultura, que desde sempre investi nesse ministério,

obrigado por tudo. Mas principalmente pela seguinte lição, por aprendida por mim, do meu jeito, jeito que não quero parar de aprender jamais. Peço licença, para, com sentimento, exaltar seu magistério e também (por que não?), apresentar os meus apontamentos de aula.

A lição ministrada:

Flora

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

"A Arte Final"



A Musa:
Flora Tropicalista, subjaz raiz da Cultura
A Veja desta semana publica o perfil da agreste
Flora Gil, mulher desse ser tão baianamente preto Gil.
[ por força da política comercial da revista, o conteúdo com a íntegra da matéria só está liberada para a leitura e deleite de todos em duas ou três semanas, mas já foi pior]





Apontamento nº 1:

O Remédio cuja ausência Remedeia
(a Nane, o que de mais valor encontrei)

Dei-lhe a mão
e todo o meu mais.
Meu coração
pela vida inteira
dela será.
Servido à luz de sóis nascentes
e guarnecido de beijos inflamados,
ele terá nela,
enquanto bater,
a ventura adrenalina.

E caso ela não mais me queira,
não descansarei jamais,
como já descansei à sombra
do seu amor.
Porque ele,
um tanto acre, um tanto doce,
arrebatou-me
irremediavelmente.


Apontamento nº 2 :

MiAu


Que isso?
Um gata?

Não, é uma canção
que acredita
que não há dita:

a paz
entre
ferinas
e caninos;

entre
femininos
e masculinos:

é possível sim;

Por que
não?

Seria
a Vida!


Apontamento nº 3 :

Quimera Ardente


Conheci a ti,
ardor
em meu corpo:
por mim.

O tempo passa,
ardor
em meu corpo:
por ti.

Anos a fio,
ardor
em meu corpo:
renasci.

Envelhecemos,
ardor
em meu corpo:
me consumi.

Feneceste,
o ar é dor
em meu corpo:
me perdi.

O amor é fogo
que arde
e só parece doer.



Minha Musa:



Obrigado, ao senhor Ministro deste subúrbio da rede
chamado Parabolicamará e
Amigô de Monsieur Binot,
que espero conhecer, porque, pelo que ouvi:
já é.

 
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