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30.8.11

Somente o que se quer e ponto de exclamação?

Burrice da vontade
loucura do desejo
achar que somente nos serve
o que a gente quer

Inúmeras experiências
fora do campo da nossa vontade
morrem vãs
sem por nós serem vividas

Objetos infinitamente vários passam
sem merecerem o nosso toque
ou sequer atraírem o nosso olhar

Pessoas e suas vastidões
permanecerão para sempre inexploradas
Ignotos universos paralelos

Não podemos ter tudo
e nosso desejo é filtro bem-vindo
mas não podemos deixá-lo reinar absoluto
fazendo-nos infelizes se não cumprimos a totalidade dos seus decretos

Que de uma impossibilidade
venham todas as possibilidades de um mundo aberto ao nosso redor
porque aberta permanecerá a cela do nosso peito
e o nosso coração jamais será escravo do nosso desejo

Assim seja por nós!

25.5.10

Carta a Se


A paz, guerreira, é um esquecimento de si
um abandono das verdades que carregamos dentro
uma suspensão do certo e do errado
um tirocínio sem julgamento

É com a chuva, matar a sede
com o estio, caiar um muro
com o vento, zarpar
com a calmaria, afeiçoar-se

Não se luta contra a realidade
ela é o que é
é pegar ou largar
pegue-a

Faça dela seu estandarte
de dor e prazer
de surpresas e tédios
de tudo junte a ele a simbólica inscrição

E ria se alegre
e chore se triste
e ame se apaixonada
e grite se dói
viva, enfim, enquanto viva estiver

Depois, possa você sorrir
porque viveu a vida que tinha de ser

6.6.09

Tempo de Vivente

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parênteses que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.

1.8.08

Cruzeiro Lunar

A luz da lua,
lívida,
atordoa a cabeça nua.

Quereres mil.
Do não
jogo fora o til.

Com a nau ancorada
vou zarpar
por um mar revolto,
lunar.

4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

9.2.08

Narciso Terrificado

Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.

Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.

A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.

Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.

Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.

Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).

O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.

Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor

21.11.07

Aragem Ventanista

Eis-me aqui
sem medo
ou coragem.

Recebo da noite
sua aragem fria.

Quero dizer meu nome
mas que precisão essa de dizer meu nome?
No alto desta noite solitária
faço-me companhia
a única companhia possível.

Alta noite que mais alto se eleva
logo será dia
e acordarei deste sonho acordado
entre mim e eu mesmo.

Terei perdido o sono
e ganho a fantasia que esta noite me tomou.

8.11.07

Tão-Somente Agora

Cada dia que viceja
é óbito dos dias idos
e antevisão embaçada de um devir incerto.

Não corroa assim o tempo:

carpindo o dia que se foi
ainda que antológico
ou de árduo horror.

prelibando o futuro
que, quimera,
é desejo lançado no abismo do nada.

Deixe todo o ontem na sua hora,
em algum arquivo esquecido
em um recanto da memória.

O futuro deixe ser o que será,
sem mapas, rotas, planos.
Arcano inalcançãvel,
tempo impreciso.

Viva intensamente o agora,
ele é todo glória,
resultado de todo o ontem morrido,
promessa incompleta de todo o amanhã ansiado.

2.11.07

Vazio Essencial

Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.

Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.

Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento

29.10.07

A Ruína

Ao velho que quero ser

Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?

Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.

Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.

As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.

O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.

Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.

Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.

25.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

21.10.07

O Último Tigre da Estirpe

ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo

Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.

Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.

Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.

Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.

19.10.07

Os Alienistas

ao Machado de O Alienista

Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.

Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.

São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.

Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.

São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.

16.10.07

À Mesa com Leveza

A leveza
põe-se à mesa.

No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.

Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.

13.10.07

Lili Berra

A menina Lili,
linda:
Grita!
Berra!
Urra!

O que busca
a Lili menina?

A libérrima liberdade
do vôo furtacor
da libélula.

Liberte-se, mulher!
Você já tem todas as cores,
a paleta
e o pincel.

10.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Aí,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

5.10.07

Tombo

Mais uma vez
abriu-se um vão
sob mim.

Caí,
profundamente.

Lá, no breu,
concluí:
os sonhos
queridos de verdade
demandam
todo o suor.

É...
hidratar-me
é precioso.
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Repercussão no Bardo Escritor
o metafórico bar do Orkut

 
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