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15.12.07

Tempo Déspota

Hoje acordei de um sonho dos Deuses

Sonhei que escolher não era necessário
que podia ter tudo
o tempo
as coisas
as pessoas

Sonhei que amava várias mulheres
que morava em inúmeras casas
que professava todos os credos
que, no restaurante, pedia todos os pratos
que exercia todas as profissões.

Acordei com o despertador
que comprei entre tantos
mandando-me para o trabalho de todos os dias
escolhi a roupa que vesti
e, cedendo à tirania do tempo,
enfrentei a lotada infernal do trem:
antes tivesse ido de ônibus.

19.11.07

Respeito à Hábil Navalha

Vibra no ar o aço flexível da navalha
Sacada na hora improvável.

A ameaçaFaz tremer.
Cadê a fama do matador?

O suor nasce frio
Como lâmina
Penetrando a carne.

O algoz corre morto de medo pelas vielas.
Teme morrer o matador.

Tão cedo não aparecer
Naquelas paragens
São os planos do matador.

8.11.07

Tão-Somente Agora

Cada dia que viceja
é óbito dos dias idos
e antevisão embaçada de um devir incerto.

Não corroa assim o tempo:

carpindo o dia que se foi
ainda que antológico
ou de árduo horror.

prelibando o futuro
que, quimera,
é desejo lançado no abismo do nada.

Deixe todo o ontem na sua hora,
em algum arquivo esquecido
em um recanto da memória.

O futuro deixe ser o que será,
sem mapas, rotas, planos.
Arcano inalcançãvel,
tempo impreciso.

Viva intensamente o agora,
ele é todo glória,
resultado de todo o ontem morrido,
promessa incompleta de todo o amanhã ansiado.

25.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

10.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Aí,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

 
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