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6.6.09

Tempo de Vivente

Agora,
eu quero agora,
pois nada me adianta fiar
pela hora das coisas.

Não sou coisa
que dura infinita no tempo,
mesmo que partida,
estilhaçada,
aparentemente destruída,
mas cujas moléculas persistem,
testemunhas particulares
da existência dela, da coisa.
Ou melhor, de uma coisa,
qualquer coisa,
uma coisa qualquer.

Não sou coisa,
já disse.
Mas também não sou qualquer um,
um qualquer,
em fileiras imensas
de uns quaisquer
igualmente iguais
a outros quaisquer uns,

As coisas são assim,
iguais nos íntimos de si
e eternas porque
para sempre
e desde sempre
já mortas.

Eu não.
Nós não.
Somos seres vivos,
por isso, vez por outra,
temos as carnes inflamadas em fogo,
a alma esvaziada porque exala gases cáusticos,
ao preço de carnes calcinadas,
reais e verdadeiras,
tornando a fuligem cinza
o olhar dos olhos próximos
distante
e gélido.

Com a urgência dos desesperados,
lanço sobre o rubor mínimo e derradeiro
tudo que tenho,
tudo em que em mim posso transmudar
em mim mesmo,
mas melhor,
mais eu,
fiel à minha estranheza original
que se vai construindo
e que jamais se conclui.

Eu quero agora,
porque logo ali,
quase aqui,
um nada além de agora,
tudo se acaba para nós,
seres lindos,
quase divinos,
porém mortais,
parênteses que se abrem
e dividem
o todo nada de antes,
de um lado,
e o todo nada de depois,
do outro.
No meio, nós.
Nós e o pouco que podemos,
mas que pode ser tudo
se o fizermos.

24.1.09

O Corredor

A vida é uma corrida:
partida na chegada,
chegada na partida.

Essa corrida não corro lento
nem vou o mais veloz:
nela não quero chegar antes,
nem após.

Que me doa a dor que tiver que me doer,
que eu suba aos céus de prazer,
mas desta pista somente saio morto de viver.

1.8.08

Cruzeiro Lunar

A luz da lua,
lívida,
atordoa a cabeça nua.

Quereres mil.
Do não
jogo fora o til.

Com a nau ancorada
vou zarpar
por um mar revolto,
lunar.

21.6.08

Negra Li

Hoje acordei
e o mundo
estava nele mesmo

os carros
e os ônibus
subiam em algazarra
à minha cama
já ela
não mais
emolduraria minha janela.

Embora eu não quisesse
ela se foi

foi pra não voltar

veio a morte
e a levou

levou-a
para longe do meu olhar

Para ela agora
não há mais
carros
ônibus
janela
e eu.

Para mim
foram-se
os carinhos
um roçar de pele
o ronronar matinal.

Ela se foi
para não mais voltar,
minha gata
Negra Li

4.3.08

Acordados por Sonhos Somos

No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos

Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta

A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia

O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva

Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é

9.2.08

Narciso Terrificado

Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.

Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.

A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.

Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.

Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.

Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).

O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.

Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor

24.11.07

O Primeiro Não

Insensível
O rato
Insensato
E intimorato
Abre caminho
Invade e destrói
O ninho
De magafafinhos

E eu menininho
Descubro
O ninho
De ovos
Violados

Tamanho descalabro
Para mim
O primeiro não na vida
De tão poucos sins

4.11.07

Ficus ou Não Fico

Getúlio:
Fico ou não fico?

Que belos tempos os do Catete,
das paixões e das indignidades:
diga ao povo que não fico
- BAMMM! -
chumbo sobre o músculo cardíaco.

Festejados sejam os
dias do fico.

Coração em fogo:
Fica comigo essa noite?

Vivam todos os que,
a despeito dos mitos,
teimosamente ficam:
árvores encopadas
e ficantes extasiados.

Não digo o fico do Pedro,
cuja altivez tinha à cabeça
pedras quiçá moles demais.

Afinal, mais valem para mim
os majestosos ficus elásticos
da minha Usina da Tijuca querida
à sandice dos que não ficam
por vontade ou falta de coragem.

2.11.07

Vazio Essencial

Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.

Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.

Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento

31.10.07

A Vida é Bela Menina

As mãos eu mergulho
em rios de sangue

Ela ergue a cabeça a procurar
nas nuvens brancas
Anjos cândidos

A vida é bela
vista da perspectiva
das janelas
dos olhos dela

Sobre a terra
Anjos caídos
são pisoteados por hordas de famintos
por turbas de fanáticos
por bandos de bandidos

Para ela
eu minto:

Filha,
olha para cima,
lá estão as brancas nuvens
onde moram Anjos cândidos.

Viu, menina?
A vida é bela!
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para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

 
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