Hoje acordei
e o mundo
estava nele mesmo
os carros
e os ônibus
subiam em algazarra
à minha cama
já ela
não mais
emolduraria minha janela.
Embora eu não quisesse
ela se foi
foi pra não voltar
veio a morte
e a levou
levou-a
para longe do meu olhar
Para ela agora
não há mais
carros
ônibus
janela
e eu.
Para mim
foram-se
os carinhos
um roçar de pele
o ronronar matinal.
Ela se foi
para não mais voltar,
minha gata
Negra Li
21.6.08
Negra Li
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9.3.08
Competitividade Jaqueira
Era uma vila operária habitada por trabalhadores da fábrica de telhas e da de tecidos Maracanã. A lida era dura. Labutavam muito. Iam dormir com as galinhas e com os galos despertavam. Isso em um tempo em que o ditado se dava literalmente, quando, na Usina da Tijuca, ainda se morava em casas com galinheiros e em que os galináceos andavam soltos pelas ruas, ciscando ali e acolá.
Pois bem, o fato é que todos se retiravam por volta da hora do Angelus, para fazer suas preces e, ato contínuo, dormir.
Havia vezes, entretanto, em que a rotina era quebrada. Das casas ouvia-se um som surdo e, em resposta, seus moradores saíam em camisolões alvoroçados. Iam atrás dela, a jaca que caíra, em aberta competição. Até que se ouvia um grito de rasgada euforia. Um deles a havia encontrado. Catava o troféu e em atitude vencedora, o levava secundado por uma procissão. O felizardo adentrava a sua casa, retalhava a jaca e compartia sua vitória com os demais. Todos teriam jaca para o café da manhã seguinte.
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27.12.07
Um Amor Tanto
pelo aniversário da Nane, o meu Amor
Este amor é tanto
que não há mar
que suporte em sua umidade
o fogo deste amar
será porque que a amo assim
inteiro?
não sei
só sei que é assim.
nosso amor
guerreia
fazendo as pazes
pacifica
fazendo guerras
um caldeirão de emoções
as mais loucas
nos atormenta
e gratifica
nos dói
e sara
e ao final
estaremos exaustos
e com um sorriso bobo na boca
que assim seja.
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5.12.07
Modus vivendi
Aonde vou
depois de tudo.
Depois de ninguém mais me ouvir ou ver
por ter-me tornado um nada invisível e mudo.
Não sei para onde vou,
mas sei que agora sou.
Depois não sei mais se serei
nem, se for, se serei pior ou melhor.
Sei onde estou a agora:
sobre essa terra que me dá chão,
ao sabor desta brisa que me beija inteiro.
O que sei é que estou vivo:
durmo e acordo,
como e bebo,
defeco e urino,
tenho amigos e inimigos,
prazeres e dores.
Vivo simplesmente a grandiosidade da vida que que me foi dada.
É o meu jeito de reverenciá-la,
de tentar sair dela quase a deixando como a encontrei:
sagrada e intocada para quem virá.
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12.11.07
Poema ao Poeta
Poeta,
Que Musa
É essa
Que te inspira
Para meu regalo
E nem sequer
Te conheço,
Muito menos te falo
E me dizes tudo,
Sussurrando ao meu ouvido
Segredos de mim
Que me eram secretos
Quem és tu
Que, quando em qualquer ponto
De tua estatura
Sem tamanho
Descanso o olhar
A ler-te,
Invariável é que apanhem
A minha arcada
Em sorriso solto
Aliviada
Pela luz da tua graça
A mim que me firo
Por tombos
Em cadafalsos
Sobre o solo tolo
Da aparente concretude da realidade
Ofereces como solução
Imagens mirabolantes.
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7.11.07
Santa Guerreira Atéia
(à Nane, minha mulher guerreira)
Gosto desse seu ar
De absoluta revolta
Contra as atrocidades
Do mundo.
Você não acredita em céu,
Nem no ir e vir
Da alma.
Mas, apesar de nenhuma fé,
Segue calma,
Acreditando no homem
Como ele é:
Terrível e terno,
Justo e iníquo
Mau e bom.
Nesse seu caminho
Não se ouve som
De lamento,
Só o das suas armas
Para essa guerra
Que a vida encerra
Ao querer perpetuar-se
Pela matéria.
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5.11.07
BOPE - Beleza de Operação Especial
Minha gatinha
é mesmo muito linda
Ela anda pelas ruas
enquanto olha o mundo
Se um do mundo cai
ela é capaz de desviar-se do caminho
para salvá-lo
Como não a amar
de amor maior?
Como não ser servidor
do serviço a que ela serve?
Serviçal
ás vezes quente
às vezes fria
às vezes dura
às vezes suave
às vezes doce
às vezes Docinho
Mas sempre uma serviçal
que serve
ao mundo
com um sentimento
estranhamente estrangeiro
Salvas à minha menina
santa e atéia
guerreira e super-poderosa
Como ela quantas?
Não há muitas
arriscaria até dizer
só há ela
única e especial.
Minha mulher
mãe do Dan
a você me prendo por vontade.
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23.10.07
Plazas de Mayo
em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original
Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.
Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.
Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.
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21.10.07
O Último Tigre da Estirpe
ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo
Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.
Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.
Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.
Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.
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16.10.07
À Mesa com Leveza
A leveza
põe-se à mesa.
No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.
Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.
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Dias Sem Fim
Canso dos dias
Uns atrás dos outros
Todos numa fila imensa
A espera de mim
Que não quero seguir
A estrada do tempo até o seu fim
Queria sim
Parar o tempo no momento de um beijo
Que, eterno, dê-me da boca o seu frescor
Sempre te amar, amor
Sem a morte para nos separar
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7.9.07
Que todas sejam FLORAS, que o mundo seja quintais com pomares para nos nutrir e descansarmos das batalhas
Gil, meu Ministro da Cultura, que desde sempre investi nesse ministério,
obrigado por tudo. Mas principalmente pela seguinte lição, por aprendida por mim, do meu jeito, jeito que não quero parar de aprender jamais. Peço licença, para, com sentimento, exaltar seu magistério e também (por que não?), apresentar os meus apontamentos de aula.
A lição ministrada:
Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
"A Arte Final"
A Musa:
Flora Tropicalista, subjaz raiz da Cultura
A Veja desta semana publica o perfil da agreste Flora Gil, mulher desse ser tão baianamente preto Gil.
[ por força da política comercial da revista, o conteúdo com a íntegra da matéria só está liberada para a leitura e deleite de todos em duas ou três semanas, mas já foi pior]
Apontamento nº 1:
O Remédio cuja ausência Remedeia
(a Nane, o que de mais valor encontrei)
Dei-lhe a mão
e todo o meu mais.
Meu coração
pela vida inteira
dela será.
Servido à luz de sóis nascentes
e guarnecido de beijos inflamados,
ele terá nela,
enquanto bater,
a ventura adrenalina.
E caso ela não mais me queira,
não descansarei jamais,
como já descansei à sombra
do seu amor.
Porque ele,
um tanto acre, um tanto doce,
arrebatou-me
irremediavelmente.
Apontamento nº 2 :
MiAu
Que isso?
Um gata?
Não, é uma canção
que acredita
que não há dita:
a paz
entre
ferinas
e caninos;
entre
femininos
e masculinos:
é possível sim;
Por que
não?
Seria
a Vida!
Apontamento nº 3 :
Quimera Ardente
Conheci a ti,
ardor
em meu corpo:
por mim.
O tempo passa,
ardor
em meu corpo:
por ti.
Anos a fio,
ardor
em meu corpo:
renasci.
Envelhecemos,
ardor
em meu corpo:
me consumi.
Feneceste,
o ar é dor
em meu corpo:
me perdi.
O amor é fogo
que arde
e só parece doer.
Minha Musa:

Obrigado, ao senhor Ministro deste subúrbio da rede
chamado Parabolicamará e
Amigô de Monsieur Binot,
que espero conhecer, porque, pelo que ouvi:
já é.
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