E se eu fosse poeta
e tivesse somente um minuto
para o primeiro e último poema?
Antes, poeta não seria,
ou, se fosse, seria um sem poemas,
posto que não os havia escrito nenhum
até o momento dessa ideia doida
de poema de minuto.
No entanto, como sucede a todo poeta que se preza
e que escreve na primeira pessoa,
o poema seria personalíssimo,
sanguíneo,
mucoso e, para dizer o comum,
visceral.
Mas o fato é que este poeta catou o minuto
e não, ao contrário, foi por ele colhido.
De modo que o poema se apresenta esbatido em tons violáceos.
Sem sangue, portanto,
mucos
ou vísceras.
Um poema que,
como os demais poemas,
passou-se em um minuto,
bestamente.
1.3.09
Poema de Minuto
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7:46 AM
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Marcadores: alimento, metalinguagem, realidade
24.1.09
O Corredor
31.10.08
O Catador
latas,
sacos,
monturos.
É papel limpo,
sujo,
muito papelão:
caixas de impressoras,
micros,
geladeiras,
tvs,
fogões.
Antigos furos:
jornais mortos,
revistas idas.
É ele quem junta tudo
sobre a carroça.
É ele próprio
quem carrega,
a cada dia,
a história da nação,
para reciclar.
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11:39 PM
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Marcadores: brasil, consumo, fidelidade à verdade, heroísmo, memórias, viver em sociedade
1.8.08
Cruzeiro Lunar
A luz da lua,
lívida,
atordoa a cabeça nua.
Quereres mil.
Do não
jogo fora o til.
Com a nau ancorada
vou zarpar
por um mar revolto,
lunar.
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2:09 AM
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Marcadores: coragem, crise existencial, liberdade, loucura, tanatos, trabalho psíquico
21.6.08
Negra Li
Hoje acordei
e o mundo
estava nele mesmo
os carros
e os ônibus
subiam em algazarra
à minha cama
já ela
não mais
emolduraria minha janela.
Embora eu não quisesse
ela se foi
foi pra não voltar
veio a morte
e a levou
levou-a
para longe do meu olhar
Para ela agora
não há mais
carros
ônibus
janela
e eu.
Para mim
foram-se
os carinhos
um roçar de pele
o ronronar matinal.
Ela se foi
para não mais voltar,
minha gata
Negra Li
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10:31 PM
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Marcadores: animais, companheirismo, filia, luto, saudades, tanatos
1.6.08
Memórias para mais
Com serenidade e paz
a memória se faz
e dela a realidade perdida
brota brejeira
A voz ao longe
do verdureiro na feira
O verde matizado
da mata
O rubro intenso
do batom da mulata
A voz do meu amor
a dizer juras eternas
em um absoluto atemporal
que por tudo se espraia
O manequinho
apregoando o jornal
Alegria, alegria,
Caetano cantando loas ao Sol.
Domingo no Maraca
com o antigo futebol.
Tudo, enfim, que foi bom
surge
e nos dá
a mão
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2:06 PM
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Marcadores: alimento, anos 70, brasil, caetano veloso, futebol, infância, inspiração, leveza, liberdade, memórias, passado, paz interior, rio de janeiro, usina da tijuca
17.3.08
Deslocado
O sítio meu no mundo
é pequeno,
mero aceno
num mar de lenços multicores.
Agonia sem fim
esse vazio em cujo espaço
não caibo,
porque não há como preencher.
Meu lugar no mundo
é menor que eu,
porque sou inteiro o mundo todo
e mais
e, portanto, sou somente nada.
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9:54 AM
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Marcadores: auto-estima, auto-imagem, autocrítica, crise existencial, depressão, estética da alma
9.3.08
Competitividade Jaqueira
Era uma vila operária habitada por trabalhadores da fábrica de telhas e da de tecidos Maracanã. A lida era dura. Labutavam muito. Iam dormir com as galinhas e com os galos despertavam. Isso em um tempo em que o ditado se dava literalmente, quando, na Usina da Tijuca, ainda se morava em casas com galinheiros e em que os galináceos andavam soltos pelas ruas, ciscando ali e acolá.
Pois bem, o fato é que todos se retiravam por volta da hora do Angelus, para fazer suas preces e, ato contínuo, dormir.
Havia vezes, entretanto, em que a rotina era quebrada. Das casas ouvia-se um som surdo e, em resposta, seus moradores saíam em camisolões alvoroçados. Iam atrás dela, a jaca que caíra, em aberta competição. Até que se ouvia um grito de rasgada euforia. Um deles a havia encontrado. Catava o troféu e em atitude vencedora, o levava secundado por uma procissão. O felizardo adentrava a sua casa, retalhava a jaca e compartia sua vitória com os demais. Todos teriam jaca para o café da manhã seguinte.
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2:38 AM
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Marcadores: alimento, bondade, brasil, companheirismo, competição, filia, leveza, memórias, rio de janeiro, usina da tijuca
7.3.08
Joio e Trigo
Joeirar
O que se vai falar.
Pensar muito
No intuito
De não dizer
Asneira.
Mas, se são
As palavras
Como lavas
De um vulcão ativo,
Como suster o crivo
Se for para dizer:
Mulher,
Sou louco
Por você!
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9:43 PM
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Marcadores: a musa, autocrítica, coragem, eros, fidelidade à verdade, loucura, relação amorosa
4.3.08
Acordados por Sonhos Somos
No meio da noite
Acordados
Por sonhos
Somos
Poder
O mundo supor
Nossos desejos interditos
Apavora e encanta
A batalha maior
Vencer o outro em nós
E gozar nos campos do real
As fantásticas miragens da fantasia
O pensamento
Nau dessa viagem
Do conhecimento de nós
Dor e delícia nossa
Nos leva
Quanto mais fundo
E longe se vai
Menos dói a dor
E mais deliciosa a delícia
De ser e saber o que se é
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5:58 AM
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Marcadores: coragem, covardia, ditadura, dor, eros, fidelidade à verdade, insônia, liberdade, loucura, o Outro, realidade, repressão, sonhos, tanatos, trabalho psíquico, viver em sociedade
15.2.08
Sonhos da Noite no Claro do Dia
Tentei dormir em vão.
Levantei-me,
Então
Fui sonhar.
Fumaças no ar,
Mil projetos,
Mil sonhos vívidos,
Ávidos por serem vividos.
Amanheceu,
Acontece a realidade:
Os sonhos serão pelo dia olvidados?
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3:57 AM
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9.2.08
Narciso Terrificado
Ferve
Minha verve.
Quando Escrevo,
Exponho meu nervo.
Nervuras do real
Racham minha alma
Como raios
Na noite lúgubre.
A perfídia dos,
Como eu,
Homens
Instila
Na tinta negra
O seu fétido.
Assume o ar
O peso do rinoceronte
E sua cegueira o envenena;
Translúcido e opaco,
Sufoca-me
Por não me deixar
Olhar e ver
A minha face.
Ergo-me
Ao Espelho.
O visto
Apavora,
Devora.
Como narciso,
Terrificado,
Demora-me
A Eternidade
A Visão
De Mim(?).
O horror
Dessa Dor
Purga-me,
Apartando-me do humano Ser
Sem deixar de ser Humano
E passo vidas, então,
Aprendendo a só ser
Um Humano Ser Humano.
Publicado no e-zine 16 do Bar do Escritor
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3:49 PM
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Marcadores: auto-estima, auto-imagem, autocrítica, covardia, crise existencial, dor, eros, tanatos, tempo, trabalho psíquico, vaidade
1.2.08
A Relatividade na Prática
O tempo é uma dor que persiste em si
por isso também é a sua cura
O melhor remédio
a pior tortura
Dias e dias
passam arrastados por mim
Não há dor
que o tempo não cure
Mesmo a dor pelo tempo secretada
Aflição do tédio
escorrendo-me lento pela cara
De uma hora para outra
passa o tempo
e a dor do tempo passa
Foi ela
que enfim
apareceu na praça.
O tempo veloz
acelerado por aquela voz
as risadas
as brincadeiras
De súbito tudo se atira em precipício soturno:
Nane se vai
e me submerge no escarro do tempo
Quantos dias durarão as próximas horas?
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10:22 AM
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25.1.08
Vó Dulce
Fiquei mais só:
um pedaço da história
da minha infância,
adolescência,
juventude
e idade adulta
se foi agora
com a partida da minha avó frondosa.
Ela me deixou
mais triste
e feliz.
Tristeza de não mais vê-la,
de não mais poder aninhar-me
no regaço da sua dupla maternidade
na linha reta
que a ligava a mim
por intermédio de minha mãe.
Felicidade de lembranças claras e luminosas:
ela no seu jardim diariamente
às voltas com latas, vasos e vidas pintadas de branco.
A terra acomodada com carinho,
com a fé, a força e a determinação
de que era fértil aquela terra e bom o adubo,
de que suas sementes vingariam em rebentos,
de que seus rebentos cresceriam e viriam a ser árvores um dia,
de que as árvores floresceriam,
flores das quais adviriam vários e saborosos frutos:
Aires, que deve estar, radiante, de volta à sua companhia,
Ariza,
Eu,
Raquel,
Soráya,
Fábio,
Luciana,
Felipe,
Fabrício,
Alessandra,
Natália,
Juliana,
Ígor,
Danilo,
Amanda
Luísa ...
Em todos, esteja certa minha avó,
viceja sua seiva.
Que a paz do dever cumprido em alegre harmonia lhe acompanhe,
sempre.
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9:01 PM
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Marcadores: agape, alimento, companheirismo, coragem, eternidade, família, heroísmo, infância, leveza, luto, maternidade, memórias
27.12.07
Um Amor Tanto
pelo aniversário da Nane, o meu Amor
Este amor é tanto
que não há mar
que suporte em sua umidade
o fogo deste amar
será porque que a amo assim
inteiro?
não sei
só sei que é assim.
nosso amor
guerreia
fazendo as pazes
pacifica
fazendo guerras
um caldeirão de emoções
as mais loucas
nos atormenta
e gratifica
nos dói
e sara
e ao final
estaremos exaustos
e com um sorriso bobo na boca
que assim seja.
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12:22 PM
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Marcadores: a musa, casal, companheirismo, eros, filia, relação amorosa
25.12.07
Textura de Coragem
A todos os anos novos
Remendo
Todos os medos,
Meros arremedos
Com textura aparente de coragem.
Estiagem
Entre tempestades
De renovados assombros
E mais escombros
Sobre mim.
Medo madrugador
De linhas fracas
A arrebentar
Na minha Alma.
Calmo,
Corro a tomar a agulha do Real,
Para com a minha linhagem,
Costurar um elmo,
De lona tosca e bruta,
Do meu sangue rubra,
Para que me cubra
Com a verdadeira textura da coragem
Contra os fatídicos destroços
Dos tempos futuros de outras ilusões,
Rainhas destronadas
Do espírito meu.
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3:42 PM
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Marcadores: coragem, covardia, dor, fidelidade à verdade, heroísmo, insônia, realidade, tempo
15.12.07
Tempo Déspota
Hoje acordei de um sonho dos Deuses
que podia ter tudo
o tempo
as coisas
as pessoas
Sonhei que amava várias mulheres
que morava em inúmeras casas
que professava todos os credos
que, no restaurante, pedia todos os pratos
que exercia todas as profissões.
Acordei com o despertador
que comprei entre tantos
mandando-me para o trabalho de todos os dias
escolhi a roupa que vesti
e, cedendo à tirania do tempo,
enfrentei a lotada infernal do trem:
antes tivesse ido de ônibus.
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Unknown
às
1:23 AM
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Marcadores: consumo, dor, indecisão, liberdade, realidade, tempo, totalitarismo
5.12.07
Modus vivendi
Aonde vou
depois de tudo.
Depois de ninguém mais me ouvir ou ver
por ter-me tornado um nada invisível e mudo.
Não sei para onde vou,
mas sei que agora sou.
Depois não sei mais se serei
nem, se for, se serei pior ou melhor.
Sei onde estou a agora:
sobre essa terra que me dá chão,
ao sabor desta brisa que me beija inteiro.
O que sei é que estou vivo:
durmo e acordo,
como e bebo,
defeco e urino,
tenho amigos e inimigos,
prazeres e dores.
Vivo simplesmente a grandiosidade da vida que que me foi dada.
É o meu jeito de reverenciá-la,
de tentar sair dela quase a deixando como a encontrei:
sagrada e intocada para quem virá.
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Unknown
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3:37 PM
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Marcadores: ambiente, eternidade, ética, fidelidade à verdade, filia, futuro, o Outro, paz interior, presente, tempo, viver em sociedade
4.12.07
Inebriante
Sinto-me tonto
totalmente
é esse teor absurdo
de qualquer coisa em você
é esse seu absinto
inebriante profundo
que faz girar o mundo
no entorno de ti.
Você me faz
perder o chão
a dizer sempre sim
nunca jamais não.
Vou às pressas
associar-me
aos amadores compulsivos anônimos.
Poesia,
amo vossa excelência
deseperançosa
e desesperadamente.
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3:07 PM
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Marcadores: criatividade, metalinguagem, musas
3.12.07
Da Flor ao Horror
Flor
Rima-ímã
De amor
Amor
Rima-ímã
De dor
Dor
Rima-ímã
De horror
E assim
Foi que passaram
Da flor ao amor
Do amor à dor
Da dor ao horror
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Unknown
às
11:26 AM
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Marcadores: casal, dor, eros, gênero, o Outro, relação amorosa
