7.11.07

Santa Guerreira Atéia

(à Nane, minha mulher guerreira)

Gosto desse seu ar
De absoluta revolta
Contra as atrocidades
Do mundo.

Você não acredita em céu,
Nem no ir e vir
Da alma.

Mas, apesar de nenhuma fé,
Segue calma,
Acreditando no homem
Como ele é:
Terrível e terno,
Justo e iníquo
Mau e bom.

Nesse seu caminho
Não se ouve som
De lamento,
Só o das suas armas
Para essa guerra
Que a vida encerra
Ao querer perpetuar-se
Pela matéria.

6.11.07

só a cartola do Cartola pode

inspirado no CD Só Cartola da Rob Digital
com Elton Medeiros, Nelson Sargento & Galo Preto


A cartola do Cartola
ninguém a vê,
mas tá lá,
sem asneira,
altaneira.

Se uns -
também outros -
lhe bordoarem,
de cima a baixo,
como um cachação,
um som surdo
ecoa na alma do agressor

De cartola
em chapéu-coco,
a coroa faz oco
quem se fez assim de bobo
querendo ser sinhô.

Cartola bate pronto,
sambando
e entornando cachaça
em Galo Preto.

A voz lhe empresta
Nelson Sargento & Elton Medeiros.

5.11.07

BOPE - Beleza de Operação Especial

Minha gatinha
é mesmo muito linda

Ela anda pelas ruas
enquanto olha o mundo

Se um do mundo cai
ela é capaz de desviar-se do caminho
para salvá-lo

Como não a amar
de amor maior?

Como não ser servidor
do serviço a que ela serve?

Serviçal
ás vezes quente
às vezes fria

às vezes dura
às vezes suave

às vezes doce
às vezes Docinho

Mas sempre uma serviçal
que serve
ao mundo
com um sentimento
estranhamente estrangeiro

Salvas à minha menina
santa e atéia
guerreira e super-poderosa

Como ela quantas?

Não há muitas
arriscaria até dizer
só há ela
única e especial.

Minha mulher
mãe do Dan
a você me prendo por vontade.

4.11.07

Ficus ou Não Fico

Getúlio:
Fico ou não fico?

Que belos tempos os do Catete,
das paixões e das indignidades:
diga ao povo que não fico
- BAMMM! -
chumbo sobre o músculo cardíaco.

Festejados sejam os
dias do fico.

Coração em fogo:
Fica comigo essa noite?

Vivam todos os que,
a despeito dos mitos,
teimosamente ficam:
árvores encopadas
e ficantes extasiados.

Não digo o fico do Pedro,
cuja altivez tinha à cabeça
pedras quiçá moles demais.

Afinal, mais valem para mim
os majestosos ficus elásticos
da minha Usina da Tijuca querida
à sandice dos que não ficam
por vontade ou falta de coragem.

2.11.07

Vazio Essencial

Sofro da falta de algo. Um vazio alimenta minha insatisfação. Uma ausência que não tenho como definir. Um desânimo... Um descontentamento... Um... sei lá o que.

Diante desse sentir (ou seria um não sentir?) uns se matam, outros se deixam morrer. Eu, à minha vez, por superior coragem ou por infinita covardia, sigo a viver.

Minha letra
Minha pauta
Minha música
Meu também o desalento

31.10.07

A Vida é Bela Menina

As mãos eu mergulho
em rios de sangue

Ela ergue a cabeça a procurar
nas nuvens brancas
Anjos cândidos

A vida é bela
vista da perspectiva
das janelas
dos olhos dela

Sobre a terra
Anjos caídos
são pisoteados por hordas de famintos
por turbas de fanáticos
por bandos de bandidos

Para ela
eu minto:

Filha,
olha para cima,
lá estão as brancas nuvens
onde moram Anjos cândidos.

Viu, menina?
A vida é bela!
___________________________________

para ver a repercussão e alguma história deste poema vá ao (DI)VERSOS [orkut], clique aqui.

30.10.07

Pessoa Pessoalmente

Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena,
Citam
E Recitam
Pessoas
Pessoa.

E o que disse
Pessoa
Ao isso escrever?

Pessoalmente,
Creio
Ter dito Pessoa:
Seja pequena
A alma
Da Pessoa
E a ela
Tudo não valerá a pena.
__________________________________

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29.10.07

A Ruína

Ao velho que quero ser

Que de mim ficou
depois de todos esses anos
que estive vivo?

Uma ruína
que se foi arruinando
e que me foi constituindo
aos poucos.

Sulcos que me cortam a cara,
emoldurada em brancas nuvens de paz.

As memórias orgulhosas
de fatos obscuros
ou claros
como a memória que tenho.

O olhar profundo,
afundado em você,
que agora me olha.

Um olhar que desespera a morte,
que, certa, vai chegar.
e terá, mesmo vencedora,
cedo, cedo demais,
que me enfrentar.

Sonho esta ruína agora,
porque, hoje,
sou eu quem me desconstrói.

25.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Ai,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

23.10.07

O Que Fazer das Mangas?

Não poder ficar com os outros
por não ser como eles,
dói uma dor doida doída.

Considerar ser diferente das gentes:
mulheres,
gays,
negros,
pobres
ou loucos,
isso sim,
parece-me sandice.

Só não ando de chapéu-coco
para não parecer o que de fato sou
e doerem em mim
as dores doídas,
moendas doidas do espírito.

Já se usou
andar pelas cidades no verão de Jaquetão.

Hoje a ordem é terno e gravata,
com as as camisas devidamente compridas nas mangas.

Prefiro chupá-las, as mangas,
na paz das sombras das mangueiras,
de carlotas ou espadas,
lambrecando a barriga nua.

É só questão de predileção,
que pode não ser a sua.

Plazas de Mayo

em intenção do fim definitivo dos horrores e da indiferença que deram causa à Plaza de Mayo original

Granadas explodem.
Evadem gases lacrimogêneos.
Como ímãs,
atraem os olhares ao televisor,
contraem as faces,
e traem as inconsciências.

Convulsivas,
lágrimas expandem
emoções contidas.

Depois,
é lavarem a cara,
limparem os dentes
e, a ficarem prontos para ganhar o pão de fel,
mantém-se fiéis à dita de cada dia,
e dormem tranqüilos.


21.10.07

O Último Tigre da Estirpe

ao Danilo, meu filho cordial e único, e à Nane, posseira do seu primeiro solo

Em seu colo,
solo fértil,
semeei
o coração de um Rei
dentro do qual renasci forte.

Só eu sei
o quanto me fiz presente lá,
inteiramente.

Continuação da estirpe humana
e da dos nossos predessessores retos.

Nosso filho tem um reino para governar:
o da vida dele mesmo,
no seu tempo e lugar.

19.10.07

Os Alienistas

ao Machado de O Alienista

Os outros olham os loucos
Como se não fôssemos todos nós
A confabular com o vazio.

Os outros olham os loucos
Como se não fossemos todos nós
Os alienados.

São poucos os loucos
Que sabem da própria loucura,
Que sabem da dor por todo o canto
E seguem mais ou menos sãos
Entre escombros por todos os lados.

Estamos todos internados em um mundo
Em que basta um segundo
Para que tudo caia.

São todos esses outros uns doidos
A negar a realidade
E rindo dos loucos
Que não a negaram
E que, por isso, tampouco
A tomaram para si.

18.10.07

Indicador de Mulher

O que faz já cedo
Esse dedo
De mulher jovem
No trem?

Destacado de sua senhora,
Fito-o com demora,
Impertinente, a observá-lo
Despudorado.

Gostava de cores que berram
A jovem senhora.
O contraste entre o esmalte e a pele
Era gritante.

A lotada do trem
Impedia-me a viagem
De vê-la.

Entretanto, quase a sentia diante de mim,
De pé e sem rosto,
Balançando o dedo com gosto.
A um só tempo não e sim.

Em instantes,
Minha estação.
Levanto-me
E logo saio
Sem desafiar
A desilusão.

Naquela manhã,
Fiquei sem o sim e sem o não
E aquela unha
Ainda hoje me arranha.

17.10.07

Bolar a Bola

Frio seco,
Dois irmãos
Em tocas de meia
Jogam bola.

É minha!
Não é!
É!

Zoeira,
Gritaria,
Algazarra.

Dominical,
O Jornal
Samba no chão
Contrariado.

Bola rasgada
Inclementemente
Ao meio.

Chororô,
Meias bola,
Bola nenhuma,
Bolas de meia!

Brincam
Os meninos
Com bolas de meia
E, em capacetes de meia bola,
Sobem e descem
Ladeiras.

16.10.07

À Mesa com Leveza

A leveza
põe-se à mesa.

No entorno,
Pessoas -
as mais diversas -
esperam a hora
de fartarem-se.

Então, finalmente, satisfazem-se
com a leveza, que,
toda consumida,
permanece inteira o que é.

Dias Sem Fim

Canso dos dias
Uns atrás dos outros
Todos numa fila imensa
A espera de mim
Que não quero seguir
A estrada do tempo até o seu fim

Queria sim
Parar o tempo no momento de um beijo
Que, eterno, dê-me da boca o seu frescor
Sempre te amar, amor
Sem a morte para nos separar

15.10.07

Suavidade Diamantina

A suavidade é um diamante bruto
que o bruto carrega no peito.

Lapidado
na procura da doçura,
extasia e encanta.

Mas o tempo passado no trabalho
de fazer brilhar o valor,
infelizmente,
é ofuscado para a maioria,
pelo brilho do divino
que sempre existiu no homem
e que somente ,
de um momento para o outro (?),
passou a refulgir

13.10.07

Lili Berra

A menina Lili,
linda:
Grita!
Berra!
Urra!

O que busca
a Lili menina?

A libérrima liberdade
do vôo furtacor
da libélula.

Liberte-se, mulher!
Você já tem todas as cores,
a paleta
e o pincel.

10.10.07

Entre Dentro e Fora

Se hoje sai
é porque não pode ficar dentro.

Se, depois, entra
é que também não pode ficar fora.

E assim vai,
ora entra,
ora sai.

Aí,
como dói lancinante essa dor cruel!

O indeciso acabou estático
na soleira da porta do céu.

 
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